quinta-feira, 17 de março de 2011
Há poucos dias um amigo me telefonou para protestar contra o salário baixíssimo que recebe por seu trabalho de professor.
Luis Paulo leciona História numa escola pública de São Paulo. Dá seis aulas por dia, passa duas horas e quinze minutos no ônibus e metrô. Os 15 minutos são importantes, pois somam mais de uma hora por semana de trabalho. Luis Paulo mora com a mãe numa casa modesta, próxima do Jardim Ibéria, no histórico bairro da Casa Verde, na zona norte da capital. Não paga aluguel. Se pagasse, passaria fome. Ou moraria em Jambeiro ou no Jardim Ângela, pois só assim poderia comer.
- Com esse salário, sou pouco mais do que um escravo, disse o professor. Gostaria de trabalhar no Acre, onde o custo de vida é mais barato e os professores da rede pública ganham mais.
Referia-se à polêmica recente sobre o salário dos professores no Acre, significativamente maior que o de seus pares paulistas. (Folha de S. Paulo, 16/10/07, caderno Cotidiano). A reportagem irritou mais de um governante paulista.
Os burocratas argumentam que o Acre é um estado pequeno, por isso pode pagar um salário um pouco menos indigno aos mestres. Esse argumento é um sofisma juvenil. Mesmo assim, não deixa de ser uma aberração. Um cidadão comum ou um mendigo pode argumentar que a arrecadação do governo paulista é infinitamente maior que a do pobre e diminuto Acre. De fato, o PIB de São Paulo é superior ao da Argentina. E então, como ficamos?
A questão não é geográfica nem econômica, e sim política. Política educacional. Afirmar que uma remuneração mais elevada dos mestres não melhora a qualidade de ensino revela insensibilidade e desprezo por uma profissão que é crucial para o desenvolvimento do país. É difícil avaliar até que ponto o aumento do salário no Acre foi decisivo no bom desempenho desse Estado do Norte no Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb).
Segundo a reportagem da Folha, a avaliação da educação básica no Acre aumentou 13,8 pontos entre 2003 e 2005, contra apenas 1,1 em São Paulo. Na mesma reportagem, o professor Antonio Chizzotti, da Faculdade de Educação da PUC-SP, declarou: "Uma das questões fundamentais na qualidade de ensino é a remuneração do docente. O professor precisa ter condições de estudar, comprar livros, ir ao teatro. Tudo isso é formação. E não dá para cobrar bom trabalho de um funcionário a que se paga mal."
Perguntei ao meu amigo quantos livros ele compra por mês.
Nenhum, respondeu. Compro dois no Natal, e olhe lá.
Não tive coragem de perguntar se ele ia com certa freqüência ao teatro ou ao cinema. Isso eu poderia perguntar a um professor alemão, francês ou americano. Aliás, é melhor não divulgar o salário dos professores na Alemanha. Ou de uma alfabetizadora alemã. Nem é preciso mencionar números: todo mundo sabe como e por que um país quase inteiramente devastado pela Segunda Guerra tornou-se, em poucas décadas, um dos mais prósperos do mundo.
Os professores da rede pública brasileira apenas sobrevivem. A remuneração dos mestres - de Norte a Sul - é uma das indignidades deste país que sonha com normas civilizadas. Se um estado rico como São Paulo continuar a pagar oito reais por hora/aula, o que se pode esperar da formação dos jovens? Ou melhor, da imensa maioria de jovens que dependem da escola pública para romper o ciclo secular da pobreza e marginalidade social?
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